Como superlaboratório brasileiro pode ajudar a construir maior acelerador de partículas do mundo
11/01/2026
(Foto: Reprodução) Mapa mostra localização dos colisodres LHC e FCC, entre França e Suíça
CERN/Reprodução
Pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), participam do desenvolvimento do Colisor Circular do Futuro (FCC), projeto liderado pelo Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN) e considerado uma das grandes missões científicas do século.
Projetado para ser o maior acelerador de partículas do planeta, o FCC prevê a construção de um túnel subterrâneo de quase 100 quilômetros de circunferência, entre França e Suíça, o equivalente a cerca de 193 vezes o tamanho do superlaboratório Sirius, localizado no CNPEM.
Ainda em fase de estudos de viabilidade, o projeto deve levar décadas para se concretizar. A previsão é que a primeira de duas máquinas entre em operação na década de 2040, enquanto a segunda só deve funcionar a partir de 2070.
💥 O objetivo do novo colisor é alcançar 100 teraelétronvolts (TeV) de energia, um patamar sem precedentes. Para comparação, em 2012 o “irmão mais novo” do FCC, o Grande Colisor de Hádrons (LHC), bateu o recorde mundial ao atingir 8 TeV.
O FCC deve permitir que os cientistas investiguem questões fundamentais ainda sem resposta na física, como a natureza da matéria escura e o papel do bóson de Higgs na evolução do Universo, por exemplo.
🌌 Com energia e precisão muito superiores às dos aceleradores atuais, a ideia é que o novo colisor revele partículas desconhecidas e abra caminho para uma compreensão mais profunda das leis que regem a matéria.
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Antes de sair do papel
Antes de decidir pela construção do novo colisor, o CERN precisa avaliar desde a viabilidade técnica e financeira até impactos ambientais, territoriais e de infraestrutura. Esse estudo envolve equipes do mundo todo e deve durar vários anos.
O futuro túnel precisa ser instalado em uma região geologicamente estável, longe de áreas sensíveis e com espaço suficiente para abrigar até oito pontos de acesso na superfície, o que já é um desafio por si só.
➡️ Além disso, a estrutura deverá comportar duas máquinas diferentes ao longo de cerca de 70 anos:
primeiro o FCC-ee, um colisor voltado para medições de altíssima precisão;
e depois o FCC-hh, capaz de atingir energias muito maiores que as do LHC.
O estudo mobiliza mais de 150 instituições e empresas. A ideia é combinar conhecimento científico com tecnologias capazes de tornar o colisor mais eficiente, sustentável e barato de operar.
Experiência brasileira
O CNPEM deve contribuir justamente onde acumulou experiência ao construir o Sirius: no desenvolvimento de soluções técnicas para aceleradores e, principalmente, na articulação com uma indústria capaz de fabricar componentes de alta complexidade.
🤝 Segundo James Citadini, diretor-adjunto de Tecnologia do CNPEM, a parceria com a instituição europeia já vem de longa data e inclui operações voltadas à transferência de conhecimento. Em 2020, essa cooperação foi formalizada com a assinatura de um acordo entre as duas instituições.
"Começou a aumentar a sinergia ao ponto de o CNPEM ter enviado pessoas para o CERN. Então tem funcionários do CNPEM que estão trabalhando em projetos do CERN, e isso para maximizar a transferência de conhecimento, o entendimento das necessidades do CERN e como a indústria brasileira poderia ajudar nesse aspecto", explicou Citadini.
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A cooperação abrange desde estudos em instrumentação científica até o desenvolvimento de tecnologias voltadas à redução do consumo de energia, um dos principais desafios de um equipamento desse porte.
O modelo adotado no Sirius -- que integrou pesquisa, engenharia e a articulação com empresas capazes de produzir componentes de altíssima precisão -- também deve ser aproveitado pelo CERN, que já mapeia fornecedores em todo o mundo para o futuro colisor.
A indústria nacional se capacitou fornecendo para o Sirius e hoje tem um grande potencial de fornecimento para o CERN. A gente precisa começar a desenvolver esse projeto e construir essa parceria. A ideia é replicar um pouco o modelo que adotamos no Sirius, em que os projetos eram pensados junto com a indústria nacional e iam sendo ajustados à capacidade tecnológica das empresas para o fornecimento. E o CERN concordou com essa abordagem.
As conclusões dessa etapa de viabilidade devem orientar as decisões internacionais sobre o futuro do FCC. Se tudo avançar como previsto, a construção só começará depois de meados dos anos 2030.
Autonomia tecnológica
Para Citadini, a cooperação entre o CNPEM e o CERN vai além da colaboração científica e representa um avanço para a autonomia tecnológica do Brasil. Segundo ele, projetos dessa escala criam demandas que impulsionam diretamente o desenvolvimento da indústria nacional.
“O CERN está puxando a tecnologia um pouco além do que foi desenvolvido no Sirius. Isso exige um novo esforço de desenvolvimento e uma ampliação da capacidade da indústria nacional. Esse avanço também permite que o CNPEM continue evoluindo no próprio projeto Sirius”, concluiu.
Vista aérea do superlaboratório Sirius, em Campinas
Reprodução/EPTV
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